domingo, 13 de novembro de 2011

Filme Madagascar 2

Vamos refletir sobre escola e cidadania? Creio que uma não acontece sem a outra.
Cabe à escola criar condições do aluno vivenciar o sentido pleno de cidadania. O aluno deve ser curioso, ter vontade de aprender, construir o sentido de sua vida e, não como vemos muitas vezes, por exemplo, os adolescentes todos "iguais" (vestimentas, hábitos) e as meninas com a resposta pronta para a pergunta em relação ao futuro: "Quero ser modelo, manequim e atriz". Nada contra, temos atores que são ícones em nossa sociedade, com cultura, identidade, seriedade, princípios bem definidos. Mas existe vida além do mundo fashion!

Deve haver um investimento nas relações humanas, pois elas educam! E o diálogo é uma condição para o conhecimento. Nossos alunos precisam ter referenciais. O professor deve testemunhar, viver o discurso que profere. Deve ter bem claro (eu sei que é difícil) que educação não é treinamento, disciplina não é sinônimo de doutrina.
A educação não é neutra, ela tem uma intencionalidade, cabe ao professor saber identificá-la, manter aceso seu exercício crítico de cidadania, para poder, formar cidadãos de verdade. O caminho seria uma oposição à pedagogia neoliberal? Até onde a iniciativa particular pode mudar a vida de uma pessoa?

É um assunto muito complexo, envolve, além de muitos fatores, a violência pessoal e a social. Desemprego, educação e saúde de baixa qualidade, falta de moradia, enfim, pobreza é uma forma de violência. Refletindo, lembro-me do romance "Teresa Batista, cansada de guerra", de Jorge Amado, onde, em um trecho, conversando com o leitor ele fala sobre as doenças que assolam o sertão: "Se não fossem a bexiga, o tifo, a malária, o analfabetismo, a lepra, a doença de Chagas, a xistossomose, outras tantas meritórias pragas soltas no campo, como manter e ampliar os limites de fazendas do tamanho de países, como cultivar o medo, impor o respeito e explorar o povo devidamente?

Sem a disenteria, o crupe, o tétano, a fome propriamente dita, já se imaginou o mundo de crianças a crescer, a virar adultos, alugados, trabalhadores, meeiros, imensos batalhões de cangaceiros - não esses ralos bandos de jagunços se acabando nas estradas ao som das buzinas dos caminhões - a tomar as terras e dividi-las? Pestes necessárias e beneméritas, sem elas seria impossível manter a sociedade constituída e conter o povo, de todas as pragas a pior? Imagine, meu velho, essa gente com saúde e sabendo ler, que perigo medonho!" (páginas 188 e 189).

O ser humano tem uma capacidade incomensurável de progredir, crescer. Reconheço que é difícil enfrentar a realidade, mas quando queremos ser melhores do que somos, conseguimos. Meus pais são semi-analfabetos, nossa casa, muito humilde. Quando meu pai comprou nosso aparelho de televisão, eu estava começando a andar, ele o fez em suaves prestações e assim que os vizinhos souberam, correram em casa. Minha mãe conta que era uma festa. Meu pai pegava todos os dias o primeiro trem (quatro horas da manhã) e só voltava à noite.

Quando recebia, ou seja, uma vez ao mês, trazia um chocolate e um gibi, primeiro do Walt Disney, depois, do Maurício de Sousa. Ele nos contava história depois do jantar. Ele despertou minha imaginação. Aprendi a ler e quis ser mais do que eles no aspecto educação formal, porque no aspecto ser humano iluminado, tenho um longo caminho a trilhar para ser como eles.

Hoje, o que vemos (claro, não é uma regra geral), pessoas que reclamam do emprego, do salário, da vida! Mas o que fazem para mudar? Uma das minhas alunas me relatou um fato extremamente desagradável: na fila do banco uma falsa loira, com uns dois dedos de cabelo escuro na raiz, reclamava da "merreca" que iria receber de uma dessas ajudas aos menos favorecidos, mas que pelo menos dava para a tintura do cabelo...

Vemos nas escolas livro de qualidade sendo ignorados pelos alunos, material escolar doado sendo rasgado. Há a mentalidade de levar vantagem e ganhar sempre. Mas ao que vem obtido sem trabalho, esforço, não se dá valor. E aqueles alunos que querem aproveitar o conteúdo das aulas, os ensinamentos dos professores, as trocas, muitas vezes são repelidos pelos demais de diferentes maneiras, seja física ou verbal (bulling).
E voltamos à base de todo esse processo de formação de cidadão: o professor!

E por falar em professor, penso logo em sala de aula e, então, descreverei uma experiência sugerida no curso da UNESP: assistir com os alunos o filme Madagascar 2.
Desenvolvi a atividade desta forma: perguntei à classe quem já havia assistido ao filme. Para minha surpresa, apenas uma criança não havia assistido. Pedi a eles que me falassem do filme. Relataram a velhinha furiosa, as zebras e o cuspe (a zebra fica triste porque não é única que não sabe cuspir), o avião sendo reconstruído, o leãozinho dançarino, a declaração de amor da girafa para a hipopótamo, a boneca havaiana. Depois que eles me relatam estas cenas, começo uma conversa questionando a respeito do significado da palavra "reflexão".

Meus ex alunos (esta atividade foi desenvolvida ano passado) têm entre 7 e 8 anos, estavam em um 3o. ano, antiga 2a. série.
As respostas são interessantes. E continuo falando da importância do pensar nos acontecimentos, na vida, nos sonhos, nos problemas, nas alegrias e ... nos filmes.Pergunto qual foi o acontecimento mais estranho do filme. Eles dizem que foi o casamento de uma girafa com “uma hipopótamo”. A partir dai a conversa "pegou fogo". Saiu desde justificativas românticas (o amor aceita tudo), como frases mais reflexivas (as diferenças pessoais não atrapalham, as pessoas são diferentes e se casam).

Falamos sobre "espécies" e a dificuldade de animais criados em zoológico se adaptarem ao ambiente de seus ancestrais. Animais da mesma espécie habituados à vida urbana reencontram aqueles que vivem em estado de selvageria. Fizemos uma lista das dificuldades encontradas. Comentamos. Eles também levantaram outras observações: a dificuldade do pai em aceitar o filho como ele é (dançarino) e não uma cópia sua (o que ele achava certo: feroz, machão, briguento), a falta de inteligência do namorado da hipopótamo antes da girafa, que tinha um "corpão mas era burrinho" (sic alunos), os pais sempre esperam pelos filhos, a mãe tem mais sensibilidade para entender os filhos, o leãozinho venceu na vida sendo ele, fazendo o que ele gostava, a vaidade exagerada e a inveja do leão que queria ser o Rei (Alfa) e fez tudo para conseguir mas perdeu porque foi desonesto.

Encerrada as participações, falei sobre "Convivência na diversidade" de uma forma adaptada à faixa etária. Eles participaram, questionaram, deram exemplos. Não há como descrever na íntegra o sucesso desta atividade, mas o mais importante é que foi plantada, naquele momento, a semente da tolerância.

http://janete-educarnadiversidade.blogspot.com/2011_03_01_archive.html


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